Artigos/Crônicas
Abaixo entram textos que exploram meu modo de observar o mundo através de palavras e imagens.
O pão que todos queriam
Quando ia passar férias no interior de São Paulo a pescaria a beira do rio era um dos meus programas favoritos. Não pela pescaria em si, mas pelas histórias que “pescava” de meus tios. Um desses tios tinha uma padaria.
Contava “causos” pescando na beira do rio, com um copo de “branquinha” na mão, o caniço na outra e o tempo já meio frouxo. Entre uma fisgada e outra, falava do Viriato, o padeiro da madrugada, homem de confiança. Ele chegava na padaria de madrugadinha para preparar a massa e deixar tudo pronto.
A massa bem sovada e fermentação concluída Numa noite dessas, Viriato foi a um baile. Bebeu além da conta. Ainda assim, não faltou ao trabalho.
Meu tio estranhou quando chegou na padaria e encontrou o homem deitado sobre as sacas de trigo, dormindo pesado, como quem caiu ali sem passagem de volta. Mas as massas estavam prontas. Todas no ponto, crescidas, esperando o forno.
Foi fazendo o serviço. Acendeu o forno, organizou as formas, levou uma a uma para assar. O cheiro de pão fresco logo escapou para a rua, chamando a freguesia.
Saiu tudo como sempre: crocante por fora, macio por dentro. Quase tudo. Na última assadeira, a massa era diferente.
Tinha pedaços irregulares, uma textura quebrada, como se alguma coisa tivesse se misturado sem pedir licença. Meu tio reparou. Pensou um instante. Mas confiava no Viriato. E levou ao forno.
Foi a primeira fornada a acabar. No dia seguinte, vieram as perguntas. Queriam aquele pão.
Uma delícia. Perguntavam o que tinha nele. Meu tio não sabia responder.
Chamou o Viriato de lado. O homem, ainda meio envergonhado, contou da festa, da bebida… e do resto.
Meu tio nunca repetiu a explicação inteira. Só dizia que não dava para fazer de novo.
Mas por muito tempo ainda pediram aquele pão, como se o gosto guardasse alguma coisa que ninguém queria entender de verdade.
E durante muito tempo meu tio inventou desculpas, como se proteger o segredo fosse também uma forma de proteger os outros daquilo que, sem saber, haviam aprendido a desejar.
Manifesto em Defesa da Calça Jeans Surrada
Existe uma injustiça silenciosa acontecendo nos guarda-roupas do mundo — ou, ao menos, no meu. Trata-se do genocídio das calças jeans velhas. Sim, aquelas que já passaram por tantas lavagens que praticamente se moldaram ao meu corpo como uma segunda pele. Aquelas fiéis companheiras de churrascos, viagens, domingos preguiçosos, sala de aula, CPTM, Metrô e até reuniões importantes (com uma camisa social pra disfarçar, claro). Mas minha esposa, com sua delicada brutalidade fashion, insiste: — "Essa calça já deu o que tinha que dar." Deu? Deu foi certo! Nunca esteve tão boa. Cada rasgo, cada desbotado é uma medalha de honra, um capítulo da nossa história juntos. Já está mais minha do que meu próprio RG! A ironia maior, porém, é sair na rua e ver jovens, e nem tão jovens assim, desfilando orgulhosamente com calças rasgadas de fábrica. Furos milimetricamente posicionados, desgastes estrategicamente planejados. E o pior: pagaram caro por isso! Enquanto eu, com minhas calças surradas com dignidade, sou julgado dentro de casa como um náufrago urbano. Vamos combinar: não existe calça mais confortável do que aquela que já perdeu qualquer resistência. Aquela que a gravidade respeita. Que cede onde tem que ceder. Que te abraça sem te apertar. Nova? Bonita? Talvez. Mas uma calça jeans nova ainda não sabe quem eu sou. Ela precisa viver. Precisa sofrer. Precisa sentar em sofá velho, pegar respingo de molho de tomate e ser lavada no ciclo errado da máquina. Portanto, lanço aqui meu apelo: deixem nossas calças em paz. Jeans surrado é patrimônio afetivo, não lixo doméstico. E se alguém perguntar, digo logo: — Isso aqui não é rasgo, é estilo vintage personalizado. Tá na moda, amor!"
Eu fui criado na rua
Entre uma queimada e um pique-bandeira, fui aprendendo sobre coragem, estratégia, convivência — e a arte de voltar pra casa só quando escurecia (e ouvindo um berro da minha mãe no portão). Brinquei de pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão. Corri com o coração na boca e o joelho ralado. Tive carrinho de rolimã, estilingue, pião, bolinha de gude. Aprendi a fazer espada com cabo de vassoura, casinha com lençol e tijolo, e a lançar pipa no céu de Santo André como quem manda carta pro universo. Quando meus filhos nasceram, tentei passar adiante esse jeito de brincar. Hoje, já trintões, eles ainda lembram das tardes em que jogamos taco, soltamos pipa, montamos carrinhos improvisados, ou disputamos partidas épicas de futebol de botão no chão da sala. Hoje vejo as crianças presas nos apartamentos, cercadas de telas e brinquedos padronizados na área de lazer. Não é só culpa do “mundo perigoso”. É também dos adultos que esqueceram que brincar ensina mais que mil aplicativos. Parques não faltam nas cidades brasileiras. A rua me ensinou a perder, a dividir, a esperar minha vez. A rua me formou. E que saudade da batata quente, do telefone sem fio, dos saquinhos do Cinco Marias… Tudo improvisado. Tudo criativo. Tudo eterno na memória.
O TEMPERO DA NONA
Há histórias que não chegam de uma vez, atravessam o tempo como quem ainda escolhe onde pousar. Essa começou muito antes de mim, na voz do meu avô, que a contava sem pressa, como quem revolve a terra com cuidado para não ferir as raízes. Falava da partida: a família deixando a Itália no início do século passado, empurrada pela pobreza, atravessando o oceano como quem carrega mais ausência do que malas. Mas nem todos vieram. Nona Miquelina ficou. Ficou por teimosia ou amor, que às vezes são a mesma coisa. Ficou com a casa, com o jardim, com os temperos que cresciam sob suas mãos pacientes. E, mesmo distante, nunca deixou de atravessar o mar em pequenos gestos: uma peça de roupa costurada com capricho, um punhado de ervas, um mimo qualquer que chegava ao Brasil como quem sussurra “estou aqui”.
Assim, durante anos. Até o dia da caixinha. Chegou à casa da tia Teresa uma pequena caixa de madeira, dessas que já contam uma história antes mesmo de serem abertas. Entalhe fino, cuidado antigo. Dentro, um pó amarronzado, levemente perfumado. Nenhuma carta. Estranharam, mas pouco. Talvez a idade da Nona tivesse apressado o envio, talvez o cansaço tivesse interrompido a escrita. Ainda assim, era coisa de Nona. E o que vinha dela não se questionava. Se acolhia.
Duas semanas depois, num domingo de maio, a família se reuniu como tantas outras vezes. Mesa cheia, vozes sobrepostas, o barulho dos pratos competindo com as risadas. Macarronada, polenta, ragu. O ritual italiano intacto. Os temperos também. Manjericão, orégano, alecrim, sálvia, salsa, pimenta calabresa e o pó da caixinha enviado pela Nona, espalhado com a naturalidade de quem confia na origem. Ninguém perguntou muito. Ninguém desconfiou. O gesto de cozinhar, ali, sempre foi também um gesto de memória. Comeram fartamente. Repetiram. E, por um instante, talvez sem perceber, estiveram todos reunidos. Mais do que de costume.
Duas semanas depois, o carteiro bateu à porta de Teresa. Uma carta da Itália. Giulia, a prima, escrevia com a objetividade de quem ainda não encontrou outra forma de lidar com o que aconteceu: Nona Miquelina tivera um mal súbito. Partira rápido. Mas deixara um pedido, simples, como tudo nela. Queria ser cremada. E queria que suas cinzas tivessem dois destinos: metade no jardim, entre os temperos que cultivou a vida inteira; metade enviada ao Brasil, para filhos, netos, bisnetos e sobrinhos. A carta terminava sem adornos. E então o silêncio começou a fazer seu trabalho.
Não houve grito imediato, nem escândalo. Primeiro veio uma espécie de suspensão, como se o tempo precisasse confirmar o que acabara de ser dito. Depois, aos poucos, as peças se alinharam. A caixa. O pó. A ausência da carta. O almoço de domingo. Há quem diga que foi engano. Há quem prefira acreditar em descuido. Mas, na família, nunca se resolveu assim. Meu avô, quando chegava a esse ponto, fazia uma pausa. Não para criar efeito. Era o tempo dele mesmo, medindo o que ainda cabia dizer. E então concluía, quase em tom de constatação: — No fim das contas, ela conseguiu. Porque há presenças que não aceitam a distância. E há despedidas que escolhem permanecer.
Os Zagueiros da Tia Ida
Toda infância tem suas grandes competições esportivas. A nossa, na Vila Assunção, acontecia sobre uma mesa: eram os lendários campeonatos de jogo de botão entre os amigos da rua. E aquilo era coisa séria.
Havia rivalidade, discussões acaloradas sobre faltas invisíveis, impedimentos imaginários e goleiros acusados de se mexer sozinhos — o que, no futebol de botão, é gravíssimo.
Nossos jogadores não eram esses moderninhos de hoje. Nada de plástico colorido comprado em loja. Os nossos eram plásticos de relógio usados e botões grandes de casaco, daqueles pouco maiores que a maior moeda. Botão bom tinha peso, presença e respeito em campo.
Existiam também os jogadores fabricados pela Estrela, vendidos nas lojas de brinquedo. Mas, entre nós, eram péssimos atletas. Leves demais. Pareciam mais interessados em passear pelo campo do que em marcar o atacante adversário.
O goleiro era uma caixa de fósforos com peso dentro. Defesa firme. Às vezes até firme demais.
Num desses sábados de campeonato, antes de ir para a peleja, resolvi passar na casa da minha avó Regina. Era quase um ritual pré-jogo: comer um doce antes das partidas. Hoje chamariam de preparação nutricional. Era julho. Frio daqueles de fazer o nariz pedir abrigo.
Quando cheguei, estavam lá duas tias para quem eu tinha a obrigação moral e familiar de pedir a bênção: — Bença, tia. Foi então que meus olhos encontraram algo que mudaria o rumo daquele campeonato.
Tia Ida usava um grosso casaco de inverno. E nele… os botões. Gente… Que botões! Enormes. Redondos. Pesados. Aquilo não eram simples botões. Aquilo era uma linha de zaga completa. Na mesma hora pensei: — Caraca… que belos zagueiros. Ali estava o reforço que meu time precisava para parar os atacantes da rua de baixo, que já estavam se achando o Santos de Pelé.
O problema era logístico: Tia Ida morava em São Paulo. E eu tinha apenas 10 anos. Ir até São Paulo para negociar aqueles zagueiros não era exatamente uma possibilidade. Mas o destino — que claramente torcia pelo meu time — resolveu colaborar. Soube que na semana seguinte Tia Ida iria visitar Tia Alice, irmã dela, que morava na Vila Monsueto. Pertinho de casa. Ganhei então uma semana inteira para elaborar um plano. Um plano simples, mas eficiente. E torcer, claro, para que continuasse fazendo frio. Sem frio, sem casaco. Sem casaco, sem zagueiros.
Recrutei dois amigos para a missão. Estratégia digna de filme policial, versão infantil. A desculpa era simples: passar na casa da Tia Alice para tomar água depois do futebol. Entramos. E lá estava ela: Tia Ida. O casaco. E os zagueiros. Hora da operação.
Fui até a cozinha, supostamente para beber água… e executei minha parte do plano: simulei um acidente doméstico. Um tombo dramático, digno de novela das nove. O barulho foi convincente. Todos correram para me socorrer. Todos. Menos Dagoberto.
Dagoberto era o homem da missão. O especialista em operações delicadas. O encarregado de surrupiar os zagueiros — quer dizer, os botões do casaco de Tia Ida. O combinado era pegar três dos quatro botões. Mas Dagoberto, diante de uma defesa tão promissora, perdeu completamente o controle emocional. Levou os quatro.
Resultado: naquele final de semana nossos times venceram todas as partidas. Defesa impenetrável. Nenhum atacante passava. Que zagueiros, meus amigos… que zagueiros.
Quanto a Tia Ida, imagino que tenha passado o resto da vida intrigada com o misterioso desaparecimento dos botões do seu casaco. Talvez tenha pensado que caíram na rua. Ou que se perderam em alguma viagem. Mal sabia ela que aqueles botões tiveram uma carreira gloriosa no futebol de mesa da Vila Assunção. Durante um breve e inesquecível campeonato… foram simplesmente os melhores zagueiros que aquele bairro já viu.
