Artigos e Crônicas
Abaixo entram textos que exploram meu modo de observar o mundo através de palavras e imagens.
Manifesto em Defesa da Calça Jeans Surrada
Existe uma injustiça silenciosa acontecendo nos guarda-roupas do mundo — ou, ao menos, no meu. Trata-se do genocídio das calças jeans velhas. Sim, aquelas que já passaram por tantas lavagens que praticamente se moldaram ao meu corpo como uma segunda pele. Aquelas fiéis companheiras de churrascos, viagens, domingos preguiçosos, sala de aula, CPTM, Metrô e até reuniões importantes (com uma camisa social pra disfarçar, claro). Mas minha esposa, com sua delicada brutalidade fashion, insiste: — "Essa calça já deu o que tinha que dar." Deu? Deu foi certo! Nunca esteve tão boa. Cada rasgo, cada desbotado é uma medalha de honra, um capítulo da nossa história juntos. Já está mais minha do que meu próprio RG! A ironia maior, porém, é sair na rua e ver jovens, e nem tão jovens assim, desfilando orgulhosamente com calças rasgadas de fábrica. Furos milimetricamente posicionados, desgastes estrategicamente planejados. E o pior: pagaram caro por isso! Enquanto eu, com minhas calças surradas com dignidade, sou julgado dentro de casa como um náufrago urbano. Vamos combinar: não existe calça mais confortável do que aquela que já perdeu qualquer resistência. Aquela que a gravidade respeita. Que cede onde tem que ceder. Que te abraça sem te apertar. Nova? Bonita? Talvez. Mas uma calça jeans nova ainda não sabe quem eu sou. Ela precisa viver. Precisa sofrer. Precisa sentar em sofá velho, pegar respingo de molho de tomate e ser lavada no ciclo errado da máquina. Portanto, lanço aqui meu apelo: deixem nossas calças em paz. Jeans surrado é patrimônio afetivo, não lixo doméstico. E se alguém perguntar, digo logo: — Isso aqui não é rasgo, é estilo vintage personalizado. Tá na moda, amor!"
Eu fui criado na rua
Entre uma queimada e um pique-bandeira, fui aprendendo sobre coragem, estratégia, convivência — e a arte de voltar pra casa só quando escurecia (e ouvindo um berro da minha mãe no portão). Brinquei de pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão. Corri com o coração na boca e o joelho ralado. Tive carrinho de rolimã, estilingue, pião, bolinha de gude. Aprendi a fazer espada com cabo de vassoura, casinha com lençol e tijolo, e a lançar pipa no céu de Santo André como quem manda carta pro universo. Quando meus filhos nasceram, tentei passar adiante esse jeito de brincar. Hoje, já trintões, eles ainda lembram das tardes em que jogamos taco, soltamos pipa, montamos carrinhos improvisados, ou disputamos partidas épicas de futebol de botão no chão da sala. Hoje vejo as crianças presas nos apartamentos, cercadas de telas e brinquedos padronizados na área de lazer. Não é só culpa do “mundo perigoso”. É também dos adultos que esqueceram que brincar ensina mais que mil aplicativos. Parques não faltam nas cidades brasileiras. A rua me ensinou a perder, a dividir, a esperar minha vez. A rua me formou. E que saudade da batata quente, do telefone sem fio, dos saquinhos do Cinco Marias… Tudo improvisado. Tudo criativo. Tudo eterno na memória.
